Trabalhadores, trabalhadoras, negros, negras – #Mês-da-Consciência-Negra (2)

 

 

 

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Dentro da proposta de postar, neste Mês da Consciência Negra, imagens e textos relativos à personagens negros(as) da história do Sindmon-Metal, republicamos hoje matéria que fizemos com Maria Leonides Ramos (Leo Ramos), em 2007. Ela é viúva de Antônio Ramos, que presidiu o Sindicato no período de 1987-1990.
Ainda este mês, reproduziremos trechos da “história oral” (transcrevendo, parcialmente, o depoimento de Leo), com fotos.

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– Wir Caetano/Cerem

Em sua casa, na rua Wilson de Souza, bairro Laranjeiras, Alencar Mendonça Ramos, 23 anos, fez questão de dizer: “a pessoa que deu a vida pela luta merece ser ao menos reconhecida”. Ele se referia ao pai, Antônio Ramos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João Monlevade na gestão 1987-1990, que se matou no dia 24 de abril de 1999. É a história desse sindicalista – cuja trajetória está ligada a conquistas como a implantação da “tabela francesa” (*) para humanizar o sistema de revezamento – que a equipe do “Projeto Memória” foi resgatar junto à família dele, no último dia 1º.

Antônio Ramos, ou simplesmente Ramos, como era conhecido por familiares, amigos e companheiros, nasceu em João Monlevade (MG), filho primogênito em uma família de sete irmãos. O pai, José Guilherme, supervisor da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, não deixou de manifestar sua resistência quando o futuro sindicalista começou a se envolver com as lutas sindicais. “Lembro-me do Sô Zé falando: você está cavando a sua cova”, conta Maria Leonides, a Leo, viúva de Ramos.

Leo diz que foi “muito difícil” conviver com os desafios que a vida sindical impunha na época. Quando ela se casou, no dia 27 de julho de 1979, Ramos, então com 30 anos, já estava engajado no movimento operário, estimulado, segundo ela, pelo padre Renato Stomarq, militante das causas populares, que celebrou o casamento.

“Era uma política brava, quinhentas vezes pior do que essa agora”, conta Leo, que diz ter lembranças duras de setores da imprensa monlevadense que foram implacáveis com Ramos. O filho Alencar complementa: “diziam coisas que nada tinham a ver, para jogar a opinião pública contra ele”.

O aprendizado da política e o Grupo de Mulheres

Apesar de problemas decorrentes da “política brava” e de crises de depressão de Ramos, a trajetória do sindicalista deixou frutos políticos também dentro da própria casa. “A visão política que tenho hoje devo muito a meu pai”, conta Alencar. O ensinamento começou tão logo ele nasceu, já que o pai lhe deu o nome de Alencar em homenagem a José de Alencar Rocha, que morreu em setembro de 1978, antes de assumir a presidência do sindicato.

Já Leo lembra que sua casa era um verdadeiro “recanto para reunião”. Ela conta que, às vezes, “tinha 19 carros” de pessoas de movimentos populares e políticos em frente à sua residência. “[João Batista dos] Mares Guia, Virgílio Guimarães… virei babá desse povo todo”, diz. Mas o mais importante nessa história foi o papel que a professora Celeste Maria Semião (já entrevistada pela equipe do Projeto Memória) desempenhou nesse processo de encontros e reflexões.

Leo conta detalhes: “A Celeste queria o quê? Os homens avançavam nessa caminhada e as mulheres se deprimiam, se queixavam, se neurotizavam. Então, ela teve a brilhante idéia de condensar essas mulheres para um lado, trabalhando as dificuldades. Aí, veio aquela menina da Casa do Trabalhador, Regina Fazzi, para coordenar o movimento, orientar…”. Nascia o Grupo de Mulheres, cujo papel no apoio às lutas dos metalúrgicos de Monlevade e no diálogo com a comunidade foi fundamental.

Segundo Leo, o grupo acabou quando o imóvel onde se reunia, chamado “Nossa Casa”, foi fechado pelo prefeito Carlos Moreira, em seu primeiro mandato (2001-2004). “[Lá] tinha psicólogo, trabalho artesanal. Em toda cidade avançada, existe a Nossa Casa, onde as pessoas com dificuldades vão pra lá. Vou liderar o grupo de mulheres e fazer [o prefeito] voltar com Nossa Casa”, diz.

Atualmente, Leo Ramos, que tem também uma filha (Edelvais, de 26 anos), faz parte do grupo “Oração e Vida”, da Igreja Católica, e trabalha na Pastoral Carcerária, dando apoio a familiares de presos.

[Leo Ramos – reprodução de imagem de vídeo]